14/05/2012

A gente se alegra

E a gente se alegra ao descobrir que as crises e crisezinhas foram compartilhadas com estranha correspondência. E se alegra ao ver que praticamente todos temos dessas, mas que apenas a gente, neste momento, pelo menos, assume. E a gente fica feliz por se encontrar numa fase de apego ao que se desenrola do acontecimento, mais que evento, e de poucas outras coisas, sabendo que as pessoas se apegam demais a coisas de menos. E fica feliz por saber que todos necessitamos, mas que a gente inescrupulosamente o faz. E se quer saber, foi a escuridão milesimal do piscar de olhos, o sopro brusco da entrebatida daquela porta, sua brisa periódica, o instante que fingiu ser desatento, aquele pequeno momento, sem pausa, tudo rápido, tudo nem era tanto, foi ali e jura-se ter sido um instante, que a gente se alegrou e resolveu que a história teria um outro arranjo, mudo ainda, que ganharia voz e gestos e acordes e... silêncios. A gente se alegra por saber que esta história pode ser contada pelos silêncios.

02/03/2012

Pedra é plágio

How many roads?
Tinha uma pedra no meio do caminho.
Like a rolling stone no meio do caminho:
The answer, my friend,
nunca
me esquecerei.

10/12/2011

Espelho

a ala dos comuns
a vala comum
o cão que lembra
a tentativa
a explosão
a nova tentativa
a epiderme gelada
a respiração fraca
os surtos de ansiedade
a preguiça
o cobertor bagunçado
o quarto sujo
os olhos fechados
os óculos do avô
as fotos escondidas
o presente escondido
a rapidez das palavras
das boas
e das ruins
o ano que passou rápido
as promessas que não foram cumpridas
ainda
as promessas que foram desperdiçadas
e tantas outras coisas
o espelho que está dizendo quase tudo, as pessoas que estão falando as verdades eternas. E você, cansado, se olhando e dizendo sem se convencer que as coisas vão melhorar.

18/09/2011

Selvagem (esboço #1 para)

- Lá vem você de novo estragando uma coisa boa. - pensou Silvio W., que aguardava o sinal abrir.
Todas aquelas pessoas, a multidão dos trabalhadores e os das inúmeras festas das redondezas, aflitas com a demora do semáforo fizeram Silvio achar engraçado aquele teatro, muito parecido com o de dentro de um elevador, em que os mínimos gestos são calculados por serem todos percebidos. Antes mesmo que o sinal abrisse, lançou-se sobre a faixa de pedestres, sendo seguido por alguns. Pensou em parar bruscamente porque sabia que muitos fariam o mesmo e assim ele tiraria alguns do catatonismo. Imaginou que isso o faria sentir-se o escoteiro da Paulista, que faz a sua boa ação todos os dias. A de hoje: resgatar seres da cidadania, esse mal que conforma as práticas, que elimina anseios e os reduz a esperas de sinais.
Os carros foram parando, alguns motoristas aceleravam seus carros intermitentemente e causavam receio aos pedestres. Por protocolo, Silvio sempre fez questão de olhar através do pára-brisas direto nos olhos de quem faz isso. Sabia que era algo animalesco, semelhante a um duelo de faroeste, no qual a intimidação tem papel fundamental. Esta prática era melhor ainda com motoqueiros, pois com os dos carros sempre havia um espaço para a dúvida de Sílvio estar ou não encarando. Os motoqueiros, como sabia Silvio, eram dotados do ímpeto das ruas e sempre queriam partir para o contato, porém, tantos são os selvagens da cidade que nunca houve motoqueiro que comprasse a briga, por todos os medos: de perder a moto, de perder o emprego.
Mas aquela pergunta continuava a lembrar Silvio, colocando-o de volta ao seu mundo, onde aquele latejar inconstante começava a irritá-lo. O ruim de não se ter padrão é que sempre se espera por ele. Espera-se encontrá-lo numa linha de tempo mais extensa, ou compreender seus mecanismos, quando cronologicamente inexato. Essa espera é o sofrimento dos que escolhem ser selvagens.

17/09/2011

Café com Rotina (ou da personalidade fiel)

Não há nada de errado em gostar de rotina, de tentar mantê-la.
Estranho é antes o que prega a vida violentamente diferente a cada instante. Tem gente que tenta viver uma vida sem rotina: "bom, hoje eu vou viajar sem rumo".. "ah, agora quero conhecer restaurante tailandês".. Esses tolos não percebem que a própria busca pelo diferente, quando se torna sua "filosofia", se torna antes disso uma maneira sistemática de conduzir a vida, sendo portanto rotina.
Aquele que varia seus atos, condutas e emoções não é o inovador. Ele está mais para um cansado, um falido no gerenciamento dos seus sentimentos. Engraçado que é exatamente o oposto que se prega nas neofilosofias (vãs como as clássicas) e por toda uma inteligência mercadológica. Mas o motivo disso é óbvio. Agora eu tenho que ter inúmeras roupas, ir a todos os lugares da galáxia - ou pelo menos comer coisas de todos esses lugares em restaurantes descolados? E o amor àquela camisa xadrez de flanela que desenvolvi nos seus dez anos de uso intenso? E a carne de panela da mamãe que eu tanto gosto? Será mesmo necessário conhecer de tudo para saber que o que eu gosto e amo já me é rotineiramente palpável?
Se levarmos ao extremo esse pathos pelo novo, então teremos por exemplo que experimentar todos os tipos de drogas e praticar a poligamia - que para mim continua se chamando adultério, traição, infidelidade.

31/08/2011

Cinismo: Bom, Velho e Revelador

Seria brilhante, não fosse tão ingênuo um artifício utilizado por praticamente todas as pessoas que se sentem encurraladas num debate. Exceção feita aos políticos. Não lembro de nenhum que tenha se valido de tal ferramenta, pelo menos os bons políticos, profundos conhecedores que são dos artifícios de evasão e persuasão:
A pessoa te responde com ironia uma coisa, querendo com isso demonstrar de maneira humorada que a verdade é o oposto do que ela está respondendo. Mas fica evidente que a verdade é realmente o que ela responde ironicamente, sendo o humor apenas um instrumento de dispersão de ideias.
Os especialistas em discurso devem ter dado um nome para isso...

30/08/2011

A Extinção Desejada

Fosse eu um mendigo, eu passaria fome, frio, mas não mexeria em lixo. Nem para comer, nem para achar coisas, nem para pegar latas, garrafas, papelão, nem para nada.
Que se danem os que defendem a falsa ideia de que os catadores têm uma função social e ambiental importantíssima. Acho o cúmulo atribuir a qualidade de ajudador da natureza a alguém que está em condição degradante de trabalho, de alimentação, de vida. Porque, sendo assim, estamos naturalizando uma condição que deveria ser de exceção. Mais ou menos assim: os mendigos catadores de lixo são importantes para o ciclo da reciclagem (ou seja, são importantes para várias cadeias produtivas que fogem ao alcance de uma explicação ligeira), logo são importantes para o meio ambiente. Portanto, para ajudar o meio ambiente não podemos deixar os mendigos entrarem em extinção.
Outra coisa: o simples ato de mexer no lixo, seja para procurar comida ou materiais recicláveis, abre caminho para a degradação mental e física de uma pessoa. Mesmo sendo uma condição de emergência, a mendicância pode ser dividida em duas etapas: o antes e o depois de fuçar em lixos. E assim que se começa a fazer isso, uma grande comporta se abre na vida de tal pobre ser. Esvair-se-á dignidade, sanidade e controle próprio.
Sucedem etapas lógicas: primeiro vem o estranhamento (não gostar de mexer no lixo); depois vem um raiva de si (como se permitiu chegar a esse ponto); depois se acostuma e não se sente mais o asco (naturalizar qualquer situação desconfortável é um instinto de sobrevivência humana muito forte); após aprender a conviver, passa-se, por fim, a se sentir parte do lixo, afinal, é dali que se está extraindo os recursos de sobrevivência.
Claro que fica difícil para um mendigo perceber, mas a cadeia produtiva da reciclagem já adquiriu grandes proporções. E em oposição ao aniquilamento de sua mente e corpo, já tão frágeis, estão uns poucos que prosperam de maneira nada inovadora. Quando o miserável passa a se sentir como o lixo, não conseguirá perceber o quão hedionda é a sua situação. O pior é que esse processo de degenerescência, tão apoiado até mesmo por acadêmicos devido ao já citado "papel ambiental", não difere em nada dos "moinhos de gastar gente", o modelo clássico colonial do Brasil. As gentes são as mesmas, a roda é a mesma, o giro, o único.

27/08/2011

As cracolândias dos nossos armários

Penso que é mal comum de todas as grandes cidades ter um lugar destinado ao consumo de drogas. Não importa o quanto se ordene as estruturas e serviços metropolitanos, vai ter algum lugar, num canto, geralmente escondido - não é o caso da minha São Paulo -, em que o olho do poder vai fazer vista grossa. Não sei se alguém já tinha formulado essa tese, só sei que não li isso em lugar nenhum. Portanto, considero um pensamento autêntico.
Pensei hoje, ao empilhar desordenadamente no armário umas roupas que havia usado (mas que vi que ainda daria para usar pelo menos mais uma vez, mas também que não estava com disposição para encabidar ou dobrar direitinho), que todos temos e precisamos de espaços escondidos para alguma bagunça. Sabemos que está bagunçado e que precisa ser arrumado, mas mantemos esse espaço lá. Às vezes olhamos para ele, fazendo promessas de um dia arrumar. Bem sabemos que isso, se ocorrrer, será temporário ou apenas transferirá a bagunça de lugar.

16/08/2011

Senhorita Hurricane

O lugar não era o que queríamos estar. E você não queria estar em sua pele, não queria ter que passar por isso, ter de escolher entre uma vida mais reta e aqueles movimentos apaixonados. Mas você tem a explicação na ponta da língua, pois ela dissera que essas coisas acontecem, "as paixões simplesmente acontecem".
Estar apaixonado neste caso é um empate. O desejo te empurra a fazer coisas, muitas delas impensáveis como o próprio ato de se apaixonar. Você quer correr, anunciar, e apertar todas as partezinhas dela, falar bastante com ela e dela aos outros, você fantasia momentos ao lado dela e, quando ao lado dela, quer viver momentos inimagináveis. Mas, nesse caso, tal sentimento traz também a culpa antes de qualquer ato, antes de qualquer pergunta descabidamente feita olhando nos olhos.
Com ela você decidiu não ser tímido porque não teria nada a perder nem a ganhar. Parece estranho, dito assim, porém é essa a sua realidade. Você acha realmente que não vai ganhar nada ao falar com ela. Mesmo assim você quer, e você fala. Tenta não ser tão direto, você quer ser sutil. Você vê, contudo, que assim não surtirá nenhum efeito, então você tenta ser mais direto.
Será que ela entendeu o recado? Mas, e se entendeu, o que você ganhou com isso? Um dia antes, você se fez as mesmas perguntas e não teve respostas convincentes. "Você a quer" é a única explicação que convence. Você vai perguntar algumas coisas, deixar ela falar e depois você vai falar. E o que vai esperar dela?
Sempre falamos de lugares em que gostaríamos de estar. Você já imagina tudo ao pé da letra: gostaria de estar com ela e mais ninguém nesses lugares. Você sonha, ela te consome, ela é combustível em movimentos repetidos e toques impensados, com calor transmissível. E você se alegra de proporcionar calor a ela, doravante lamentando que sejam finitos os motivos. E há muitos lamentos no agora e no devir. É que precisamos lamentar para vivermos essa história. A paixão acontece e é um lamento. É uma história angustiante já em pensamento e você prefere, depois de tudo posto, somente olhar para ela e tentar ao máximo não ser o canalha da história.
Ela diria a você: "Por que você só me falou agora que estou me transferindo? Assim fica mais difícil escolher."
E você diz que essa seria a menos dolorosa das escolhas, trazendo-a para si. "E você já sabia".
Ela se defenderia dizendo que agora não daria mais, que as coisas caminhavam daquele jeito. "E agora?"
Você diz "me pede pra parar, eu paro, te deixo". E desencosta a mão das suas costelas, mas a mantém próxima, contornando o seu corpo.

05/07/2011

O Aço Cego da Cidade

Você ouve a mãe uma última vez, e transita ordenando as inquietações dos futuros bons momentos de lazer e contemplação. E você planeja uma recepção calorosa aos amigos distantes que vão chegando lentos.
Divaga o aço cego da cidade; o áspero concreto dos cantos da cidade que foi suavizado de modo a encantar os olhos dos de fora. Permite um último conselho do pai, embrulha-o e tranca-o no bolso da calça, você espera a passagem abrir, você espera ainda uma vez, receia ir, e vai.
Você decide que beberá mais café, fumará menos, beberá menos cachaça e vodka, mas a cerveja vai manter porque manterá próximos os amigos mais chegados, com seus esperados momentos inoportunos.
Consola a sede de aquisição de posses, de bens, de todos, porque os entende e gostaria que fosse também compreendido em seu desprendimento. O aço é maleável, o concreto, poroso em qualquer estado, os conselhos, perecíveis. E você distingue que isso é a questão do tempo que finca suas fundações, o tempo-moeda, o passatempo feito chacina. E você agradece por ir, sem quase nada, só, você, pelos sulcos que te reconhecem.

17/05/2011

Cachée, eclairée

O vestido que veste é de flores. A mão, nunca irresoluta, escreve, manipula os desejos do passado - em que afirmara categoricamente como e como seriam suas coisas. Tua cabeça é inclinada neste momento. De resto, sempre sem pendê-la se afirma.
E como o sol sabe te bater. Como te brilha! No teu pescoço fino, decerto sempre perfumado para o dia da entrega; perfumado para o dia em que vai entregá-lo a outro; naquele dia, vai baixar a guarda que outrora escrevia desventuras de uma menina de vinte e poucos. E nada daquilo que irá se tornar, amará se tornar.
Toma decisões de menina. Sei que vai mudar; força a mão à caneta, mas os pulsos curvam sua delicadeza; parece que não quer aceitar que irá se entregar e largar mão de si. Mas não é necessário se reportar a misericórdias, que o amor não vai passar de ti, porque além de sorte, tens alguns vestidos de flores engavetados.

O mundo em equilíbrio

A ideia é simples:
Se a moça tem peitos grandes, a bunda é pequena e vice-versa;
Às vezes o tempo está muito fechado, com aquela garoa fina e ininterrupta. Tanto que parece que nunca mais o tempo vai se abrir. A esperança se esfria e, junto, vem a resignação;
Já quando o dia é muito quente, percebemos, pobres que somos, que a alegria vai durar pouco e que o tempo logo vai fechar;
Uma menina dos tempos de faculdade, pelo que me lembro, é um bom exemplo de exceção: era linda de rosto e de corpo, era inteligentíssima e era muito gente boa. Cá para nós que apenas uma dessas qualidades, se expressa veementemente, já bastaria - dependendo de cada pessoa a priorização das qualidades. A menina era rica também, mas isso não importa.
Pois penso nessa menina agora. E penso em algo ruim: nunca falei com ela. Foi a parte ruim disso tudo: ela lá e eu cá. Havendo algo muito bom, penso em sua parte ruim. Havendo uma menina perfeita, caço seus defeitos.
Ah, o equilíbrio sempre presente.

10/05/2011

Remédios dos dias

Recebeu a medalha, os elogios absurdos
apertou muitas mãos, de gentes próximas
e percebeu
que tudo é uma mistura de tudo.
Atendeu ao Drummond que não é remédio
e arremessou perguntas mínimas
e impertinentes.

Daí deixou as colocações repousarem no ouvido,
pressionando por anseios de violência.
Pingou do Bukowski que não é remédio
e percebeu que nada daquilo que foi dito
seria
um dia
evitado.

O dia chegou,
e não está preparado, nada mudou,
mas nasceu para isso,
visceralmente concorda
que não precisa
de remédios
e que a resposta está nos corpos em trânsito, nunca inertes.

01/03/2011

A Mariposa e o Cavalheiro

Acho que só um senhor sentado no banco reservado para idosos viu a minha agonia, quando uma mariposa pequenina pousou pouco acima do cotovelo daquela moça. Aquilo foi o fim, tanto que nem consegui trocar os olhares que vinha fazendo desde antes de embarcarmos, na São Joaquim - não foi nada de mais, somente uns olhares cruzados, ela passando a mão nos cabelos, eu encolhendo a barriga, essas coisas que não chegam a ser uma dança do acasalamento, ou algo como "olha que boi que ela tá te dando, já tá no pano".
Ignorando qualquer possibilidade de aprochego, passei a tentar insistentemente tirar o inseto da moça. Pensei "bem, o metrô está cheio, vou ficar perto e fingir que esbarrei nela", mas sabe como funciona né, as pessoas vão se enfiando na nossa frente, de modo que uma tiazinha cavou-se entre mim e aquele cotovelo. Ela poderia pelo menos avisar a menina e acabar com a minha agonia, lamentei comigo mesmo. Chegando na estação Sé, desceu aquela renca e foi então que tive a chance mais clara de efetuar meu plano de maneira sutil, até consegui dar um tapinha no braço da moça, mas nada. A moça me olhou desconfiada, mas fiquei envergonhado de informá-la. O velhinho só olhava e soltava um riso, outro que poderia avisá-la, já que estava bem na frente dela.
Foi muito rápido o momento que achei mais propício para acabar com tudo, para certas coisas a gente tem que ter feeling, vi que houve um empurra-empurra na altura da estação da Luz, aí me aproximei da garota e dei um leve assopro, a mariposa nem se mexeu. Dei mais um assopro, dessa vez bem mais forte, mas o bichinho só deu uma espriguiçada, como se eu tivesse o abanando com um leque, "assopra mais, cabaço", contudo, a moça me fitou já franzindo a testa.
Aí não teve jeito, para não pegar mal, tive que falar com a moça: você quer casar comigo?... mentira, falei apenas um "dá licença, moça", e afastei o inseto com a mão. Acabei com aquela ladainha. Comentei com ela: esses bichos não fazem nada, mas... e ela: ah é, não fazem nada, mas...
Um lugar ficou vago atrás de mim e a moça se sentou. Poxa, atrás de mim? Como eu iria protegê-la dos animais? Fiquei pensando se aquela estúpida frase valia pra mim também: esses bichos não fazem nada... não fazem nada... Essas moças precisam mesmo da proteção de animais.

25/02/2011

I just want to walk...

O sonho, sem tirar nem pôr, do começo ao fim, fora realizado como ele queria. As cenas variadas dos capítulos das novelas assistidas e vividas, no sofá da sala e na sua saída, inspirado em Mários e Marias. Sucedeu que o premeditado, por descuido, sempre isso, fora subestimado, e agora corre o piadista errante por anestesia.
Sem fôlego, pois que se entregou, há muito o faz, por muito ou pouco, por gostar da ideia - da ideia que faz de si mesmo sendo assim; Coragem, presente na multidão, mas fugidia quando o imenso propõe o encontro consigo mesmo; Visão, que da experiência enobrecera o poeta, corre também como os negativos, ali, o prestes, o conforme as coisas vão, a jornada que se completa, mais uma de tantas em tão pouco tempo, e que nunca o fizera de tal jeito que se surpreende a si mesmo, exala a irritante inconformação néscia, que nada ajuda, mas que ainda tem função.
Vai sugerir, o grande sonhador, inevitáveis envenenamentos, e carregar cruzes a lugares não melhores, mas distantes. E isso vai significar perdurar. O poeta, tolo em quase tudo, sairá com este por aí, e é que, sempre juntos, no imenso cinza, inscritos, escreverão tolices próximas.

11/12/2010

Conselhos Fermentados de Manuel

Aos meus amigos que estão perdidos
Mandem uma cerveja de trigo!

Seu humor está em falta no estoque?
Desça uma weizenbock!

Se há pouco dissestes a uma moçoila: tu já te vais?
Esqueça tudo com uma tipo weisse...

Mas se atou namorico e estás em combustão instantânea,
Prefira uma lambic, que é de fermentação espontânea.

Ainda temos tempo para perder a razão,
ainda temos as de saisons.

Contudo, se te encontras numa galera out,
é só pedir uma extra stout!

Vou confessar que tal conversa já me deixa navios a ver.
Para voltar a pisar em terra, peço uma do tipo lager.

E se ainda assim te intrigas com raparigas de umbigo em piercing:
faça como os amigos do Brasil, consuma horrores da pilsen.

Portanto, sendo clara, escura, ou outra situação que se manifeste,
tenha sempre em mente a querida marzen oktoberfest.

19/11/2010

Sonhei que corria pelado

Situação comprometedora é a de contar para as pessoas sobre os sonhos mais estranhos que se tem.
Freud já explicava e, justamente por sempre levar por trás esses relatos (sei lá o termo psicanalítico para isso), deve-se ter cuidado para quem você expõe seus sonhos.
Comecei a me interessar pela interpretação dos sonhos no mesmo momento em que passei a ter cada vez mais sonhos escrotos (hoje sei que o sentido é literalmente escrotal). E qual o período mais escroto da vida do ser humano, quando o assunto é sexo? A adolescência, claro. Tive a sorte de, nesse mesmo momento, fazer amizade com um cara que era filho de psicóloga. Certa vez ele me perguntou: "você já sonhou que estava caindo e acordou antes do choque com o solo?" A resposta foi inocentemente imediata: "claro!" Aí veio a bomba freudiana: meu amigo Fábio disse que sua mãe afirmava estar o sonhador, quando tinha esse tipo de sonho relacionado a quedas, passando por problemas sexuais.
Isso me marcou e, me auto-analisando da maneira mais sincera possível, constato que é uma proposição verdadeira. O que me conforta é que tenho certeza que a maioria das pessoas tem ou teve esse tipo de sonho. Claro que a partir desse momento também passei a fazer a mesma pergunta para as pessoas, a fim de constrangê-las sobre suas sexualidades.
Lembrei disso agora porque ultimamente ando tendo sonhos zuadíssimos. Isso tinha parado, mas agora está recorrente.
Sonhei que estava no show do Tim Maia. Tá, eu gosto do Tim, mas sonhar com isso é estranho;
Já devo ter contado o meu maior pesadelo de infância: estou andando na calçada da rua da minha casa, cumprimento uma amiguinha que está comendo um doce, ela me oferece, "não, obrigado", aí viro a esquina e tem um monstro enooorme em cima de uma cama elástica. Acordo. Esse sonho eu nunca consegui interpretar.
Por esses dias sonhei que corria pelado - agora sim, isso deve ter um caráter sexual - não sem antes estar andando de bicicleta (também pelado), junto com uma galera grande, muitas pessoas conhecidas, outras não, todas nuas, aí fiz umas acrobacias na frente das pessoas e estas "oh, que cara foda!" e larguei a bike e comecei a andar até que me distanciei da muvuca. E foi esse momento de solidão, o mais intrigante, o que deixou mais envergonhado da minha nudez. Ficava no impasse entre andar e demorar para chegar em casa ou correr e chegar mais rápido, mas com isso chamar a atenção dos poucos transeuntes.
Que puta pérola psicanalítica, hem?!
E já nem me constranjo.

05/10/2010

Última Poesia

A não ser utopias
"Não acredito em utopias"
Não vivo delas por elas não as crio
Esbarrões no caos, tropeças no meio-fio

o relógio da igreja e o sino da igreja
a calçada da igreja e o buraco na parede da igreja
já não marcam os passos denominados
dos ratos e mendigos,
que passam e que ficam
marcados, notados mas esquecidos

quem manda o sinal faz a cruz
manda passar
se alimenta da dor do que for
mente a utopia.
No ouvido, uma indagação
ou a quantia dos sinais
da maldição, do perdão,
das dúvidas morais

04/10/2010

Concreto e Imediato

Vou começar a andar armado, arma descarregada.
Escrever frasepalavra em resma.
O que sempre adiantou não é o que faz as coisas desandarem?

A rua está perigosa, a casa está sendo invadida frequentemente.
O despachante nunca entendeu:
Dobrar o destino,

Suas palavras pesam mais que sua assinatura
e visitam o eterno.
Não faça base e te levam e fica por isso mesmo,
Te tiram a música, a mão no bolso,
um beijo.
Você não se vendeu, foi tudo roubado, não sentiu nada.

Insistir no silêncio, com todos.
Mas você tem falado muito, e amado, não percebeu?
Refletiu sobre o asco e o ódio.
Torce
desesperadamente para uma concretude dos desejos.
Roubados.

03/10/2010

Outra Chance

Ésquilo vende sua alma.
Em vergonha
tropeça
e depois vaga um tempo
e ter sorte de ter tempo e ter chance:

Vergonha foi a palavra sem tradução
na noite passada.
O copo cheio, a cara limpa, perduramos,
Fez tudo para que fosse perfeito
mas a bolsa no colo, vazia de quereres guardados
no rosto.

Se fez certo
tem a certeza, calma,
que se não der certo
terá
outra chance:
a órbita do azar, ciclos fugas, considera

Dois meses.
órbita astros ou flecha errática
Nada.
mas se sentir, vague,
consuma-se, devorando a rua vazia
se estrague
chute a barata a pedra do castelo
mas só por dois meses,
de confiáveis estimativas o prazo estipulado.

Eu vi eu pude ver
minha vida ali no seu pescoço
perfume e fricção
e toda uma vida toda
durada num esboço.

Posições de desejo de uma vida toda
(estão no passado)
desejado da criança que brinca de ser:
É indecente,
fitam, mas você é diferente
recosta a cabeça no banco ou no ar
que antepara as lembranças
reflexo dos aflitos
e que a cabeça não descanse.

10/09/2010

Mulher na Pia

Se fala do sorriso
e dos cabelosondas
que amarram, validam palavras
para que não sejam ditas em demasia.

Se fala do vento cotidiano,
de como é bom estar ao lado, à frente,
a suspensão dos corpos
na grama, na cama, na rua de todos que se amam.

Prefiro menção de ti sobre o ato em si
Cheguei, você de costas, você me quis, adivinhou.
O cheiro de tudo seu que faz ponderar as forças em tuas diferenças.
Cheguei e você prefere a inércia, deixa-te.

Pressão e sonhos ali, olhos fechados, milimetrando
O que se exala e o que se inspira
Vou te carregar, larga essa louça mulher
que eu não quero mais falar dessas coisas que não se fala em demasia.

07/09/2010

Brincar cansa

A brincadeira era simples: eu tinha que alcançar meu irmão, que estava de bicicleta, com o meu velotrol (aqueles triciclos para quem não tem tamanho para andar de bibicleta). Isso aconteceu quando ainda morávamos nas Palmas, um conjunto de apartamentos na zona norte, e, portanto, eu devia ter uns 3 ou 4 anos e meu irmão uns 5 ou 6.
A brincadeira, de tão simples, foi ficando chata, entediante. Eu nunca alcançava meu irmão, ele sorria, sorria, eu me irritava ao vê-lo rir do meu insucesso. Aí meu irmão me olhou, deu um sorriso - dessa vez o sorriso era diferente, meio malicioso - e veio ao meu encontro. A brincadeira havia mudado de foco e, como por simples questão vetorial, o alvo passara a ser o meu corpo. Mesmo pequeno, consegui entender perfeitamente a mudança das regras do jogo, mas convenhamos, é muito mais difícil mudar de direção com um velotrol do que com uma bicicleta.
...
Quando brincar começa a ficar chato, é hora de crescer, e crescer significa somatizar alguns traumas, medos e complexos rumo à maturidade. Lembro que já com o curativo no supercílio e acudido por minha mãe, perguntei: "mãe, o Andi não gosta de mim?". Minha mãe, uma das referências de maturidade, usou de diplomacia, atenuou meus fantasmas.
Os traumas fazem parte da vida de qualquer um, eles não apenas travam as pessoas, eles as movem para a frente, pois fugir é também mover-se, fazem-nas diferentes, iguais apenas na condição de terem traumas.
Mas crescer é também entender os traumas, só que devo confessar que ainda tenho um pesadelo que me intriga: estou andando pela calçada, cumprimento uma amiguinha, ela está comendo um doce, oferece, eu nego, "obrigado", sorrio e continuo andando. Quando chego à esquina e olho para a outra rua, vejo um mooonstro gigaaante em cima de uma cama elástica. Acordo.
Trato na brincadeira, mas brincar cansa, crescer também cansa. Vou mesclando os dois modos, faço piadas e não rio, rio de pessoas e coisas extremamente sérias... É a minha forma de somatizar as experiências e você também tem a sua. Se não tiver, pode me imitar que Lacan deixa.

05/09/2010

Aconselhamentos Fraternossexuais

Deve-se descobrir a ausência nas pessoas, qual o que falta? o seu desejo?
Explorar seu andar paralelo - aquele que é tão parecido (simpatizam) mas incapaz de assegurar o encontro -, ande como as pessoas, sem sê-las e elas vão sentir-lhe um igual.
Abusar mais do que o necessário, aguente forte, não sinta a dor nos outros, não sinta a alegria dos outros, mas se tiver que escolher, fuja das alegrias dos outros mais do que das dores.
Manter contato, distante, não faça contato!, mas que saibam que ainda sente, que acreditem que ainda tenha uma busca, se possível que a busca passe pelo objeto-pessoa-ela porque elas gostam disso e talvez seja essa a falta nas pessoas, que elas não entendem.
Entretanto que não descubram sua abolição que de tanta insistência até você passa a acreditar, que passa a se odiar, seu foco que era tão bom, para te fazer bem e que agora, sem ensaiar, gestos anatômicos, pratica.

25/08/2010

Um lumpen para chamar de seu

Dizem que para se sentir realizado, você tem que plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.
Costumo acrescentar um quarto quesito: matar alguém. [medo]
Acontece que percebi que seria impossível se a humanidade tentasse buscar a realização conjuntamente - e até catastrófico.

Vejamos:
Se todos plantássemos uma árvore cada, logo teríamos alguns probleminhas. Dificilmente se escolheria o tipo de árvore mais adequada ao clima local e ao solo... se bem que se as árvores crescerem e caírem sobre uma pessoa, poderia-se matar dois coelhos com uma cajadada só: plantou árvore e matou alguém. E se esse alguém fosse seu filho, então seriam três coelhos. [inquietação, medo e espanto]
No caso do livro, agora vemos uma aplicação da plantação de árvores, porque aí sim elas seriam necessárias. Mas se plantarmos árvores como matéria-prima para que alguém possa publicar um livro, porque não eliminamos mutuamente esses dois quesitos e tanta chateação em busca da felicidade?
Ter filho é fácil. Ainda mais se se der no pé e nem sequer pagar a pensão.
Agora, o quarto quesito é o mais contraditório de todos, né, porque seria impossível se cada humano tivesse que matar um semelhante, pois sempre sobraria um insatisfeito, que de tão só, é provável que matasse a si próprio. [perda de tempo]

18/08/2010

O já e o Ainda

Quando se passa
uma rua
e dela não se extrai inquéritos de beleza
é quando se passa, se passa

A praça já passou, O farol já abriu, já passou, O banco quebrado continuou quebrado
na praça, pela criança que passa, e a multidão, antes entrevada, a apoiar-se em dores alheias,
rotunda
ao abrir o farol
semaforicamente
esqueceu
e também passou

Que faço ainda
sem passar como os outros
trânsito, tráfego,
Se tudo
vai estar ali
sempre
e passar?

11/08/2010

Um filme bonzinho

Causo espanto e admiração nos meus alunos (principalmente nas alunas) quando noto que algum deles está cabisbaixo. Concluo: deve ser dor de cotovelo. Daí, lanço um pensamento de Slavoj Zizek que diz que para se esquecer um grande amor, basta pensar nele o tempo todo. Obviamente Zizek não falava especificamente de amor, mas adaptei ao meu propósito.
A propósito, por falar em adaptar ao meu propósito, lembrei que isso aconteceu comigo também. Não falo de esquecer um grande amor, não, mas, pensando bem, tem a ver com um amor... não um graaande amor, mas um amor... também não vou dizer: que amorico mixuruca esse que eu vivi... contudo, um amor.
Bom, quanto "Tempos de Paz" estreou no cinema, fui assistir ligeiro. Eu mesmo não estava com tanta vontade, mas a minha namorada da época sempre me dizia a cada trailer no cinema e a cada teaser na TV, que quando o filme saísse, que iria ver. O filme saiu, mas tínhamos terminado. Conclusão: para que servem os amigos, não é mesmo?
Desenrolou que voltei a namorar essa mesma menina pouco tempo depois e não queria falar que já tinha assistido ao filme que ela tanto esperava. Conclusão: voltei a assistir com ela, e a elogiar as mesmas cenas, atuações, e a notar os jogos de câmera (não muitos, pois estamos falando de Daniel Filho e Globo Filmes), e dessa vez com mais empolgação - pelo menos da parte dela, que sonhava em fazer cinema.
A conclusão verdadeira de tudo isso só fui conseguir quando, na semana passada, uma amiga comentou sobre o filme, perguntou o que eu tinha achado e se espantou com minha indiferença. "Você só achou bonzinho? Como assim?!"
Como tento sempre investigar as causas das minhas certezas, cheguei a essa conclusão: além, é claro, da sabedoria popular que diz que o que muito se evita se convive, depois de tantas vezes repetindo a palavra conclusão, ninguém vai querer saber o que concluo.

05/08/2010

Carta a A., R. ou V.

De verdade,
Queria estar errado. Ter errado uma vez que fosse no ar daquele momento, mas tenho percebido que estou sempre acertando nos diagnósticos - e infantilmente errando nos prognósticos.
Acreditei, na verdade apenas me esforcei muito, que você tinha razão, "não custa tentar", mas só depois de sua insistência. Você insistiu: isso já bastava; você é minha amiga: isso já bastaria mesmo se tivesse insistido menos; você acreditava no que dizia: aí foi apelação.
Mas o "mas" principal é que isso virou piada: tirando você, o mundo inteiro conspirou pela minha desistência. Tá, não é questão de desistência, é questão de encarar a realidade, apreendê-la da forma que cause menos dor e constrangimento, só isso. Tento dizer com esses rodeios que tudo me mostrou o que eu tentei não ver, o que estava ali, ou melhor o que ali não estava.
No fim, o mesmo "mas" me diz para eu me manter nesse caminho, uns acertos aqui e aparos ali, e só. E claro que fico contente por ter sacado a tal realidade logo quando ela se mostrou em cinza-apático, não!, em tranparente-indiferente. O "claro" maior é que ficaria muito mais contente com outra realidade, afinal é pra isso que servem esses malditos arranjamentos.
Gritei pra você após o desfecho: viu!, eu falei!, eu estava certo o tempo todo e você não ganhou o ar que o seu próprio sangue ensaiou.
Mas, e este é o último "mas", te agradeço, minha amiga.

Porque você é minha amiga de verdade. Daquelas que eu não olho pra bunda quando vira.

Do seu amigo de alma negra.

09/07/2010

Dançando com(o) animais



Parte-se da ideia de que a caça, ação restrita ao humano (no limite, ao masculino), só pode acontecer mediante a embriaguez, o torpor. Daí, a dança, a coreografia, os passos marcados - apesar de pouco sincronizados. O homem e o bicho criam uma simbiose, dando a aparência de consentimento, de "pode me caçar, mas antes dance comigo, seu bêbado, e me adore, ofendendo seu deus, deite-se comigo, que antes de me comer, te como". E o homem aceita sua condição explicitamente carnal, sua e do animal, pois que para crescer, os sonhos que tiveram por ele devem ser enterrados.
Mas o enterro dos sonhos não se dá individualmente. Todos dançam juntos, todos se imitam - o que traz legitimidade a essa fase, nos fazendo perguntar se seria a caça uma escolha? Uma resposta viria dos balões estourados pelas meninas, enquanto o franzino dispara uma carabina que mal consegue empunhar, o estouro é também sincronizado e portanto a escolha dos meninos pela caça é induzida pelas meninas que festejam o acontecimento.
Uma pista importante está nos dois elefantes que transportam a moça (não preciso mais falar que ela está alcoolizada): seriam os elefantes homens caídos? É provável, pois a temporada já chegou e tudo o que é instituição, aceitação e sonhos será abatido. E, a passos trôpegos, caem os homens aos pés das mulheres. Esse é o preço, mesmo que ninguém lembre disso ao amanhecer.
Mas as mulheres também fazem suas honras, e, em conjunto, expõem seus corpos, sua carne mais lenta, enquanto o mais bêbado de todos toca a trombeta (o que ele anuncia mesmo?), desejando que o objeto fosse mais uma garrafa.
Enfim o casamento.
Todos ainda o aceitam - a instituição que sobrevive - e até estendem os véus, formam a capela, com pares formados espontaneamente durante a dança, mas deixando claro que a mesma estrutura que constroem é a que traz o vento e a instabilidade. Assim como o mar para o recém-casado que, com sua trombeta-garrafa se anuncia ao mundo que deixará, com seus pés embaraçados da sorte desejada após a grande festa (as latas amarradas em seu “pára-choque” simbolizam isso).
Com as ondas do mar, ou com os altos e baixos, ele afunda cada vez mais e até a mais firme das pedras pode ficar imersa, porém a dança e o torpor seguem e conduzem a fase da lamentação.
O vento não tem causa agora, mas ele está lá e todos dançam, entram na roda e se animalizam antes que a ressaca e a vida ressurjam.




O que tem de semelhante aqui?
O animal jaz abatido no pescoço do homem. Este não se animaliza nem animaliza sua caça. Ele, pior(?), a coisifica, em sereia, em deusa despida, em Cleópatra às avessas – o símbolo máximo da mulher poderosa que, ao subjugar-se, intensifica o poder masculino.
O que carrega o homem é também o que carrega a mulher. Não é um animal, e tem força de muitos deles. Não é animalizado pelo homem, mas é também sua criação.
Aqui, Ulisses não tem mais medo do canto das sereias, e a cera nos ouvidos fora substituída por outros psicoativos além do álcool. As sereias são menos que sua glória, são apenas mais um dos objetos valiosos que ele levará no retorno de sua odisséia, enquanto os festejos são feitos à exclusão feminina.
A dança existe, desta vez com a sensualidade contida nos objetos e não no movimento sincronizado dos corpos, a caça não é o refúgio da cidade. Aqui se retorna à cidade, mas não se espera que os sonhos sejam exumados.

04/07/2010

O Fácil Recorrente

Porque só se lê o que se vive:
não adiantaria entrar numa de jogatinas, prostitutas, infervescências da noite:
mas fácil seria estar em vila de cachorros, apenas vendo, esquece ler.
Conjecturas, frutas de época prontas à mesa, o carro ia rápido demais na noite passada, o que se previra, ou aquela conversa que imagina-se convencer qualquer pessoa:
fácil é se encantar e não escolher, porque escolher é fingir estar em atividade:
Como disse um rei: vale mais um cão vivo do que um leão morto: mas isso também foi lido e, se lido, procurado. Parece que não atinge.

20/06/2010

Treinar, Estudar, Casar

A complacência dos conhecidos, quando dou desculpas e pretextos por não treinar o tanto possível; o ressentimento dos mesmos, ao estarem machucados, contundidos, impedidos de treinar seu tanto: está certo, tem que ir na mãnha.

A cobrança de alguns, se percebem que não tenho mais o ímpeto, o apetite pelos livros e se digo que é só um tempo e que vai passar; de certa forma isso vem em forma de arrependimento constante por não terem feito o mesmo "quando podiam".

Os netos, sobrinhos e afilhados que eu poderia já ter dado, mas meu gênio sempre me impede de permanecer num relacionamento e não se demore e não fique trintão aqui em casa; o pesar dos casados, recém ou não, perante crisesinhas, e o conselho de que se aproveite a situação porque depois já era.

16/06/2010

Insistindo no método da vovó

Continuo a aplicar, na miúda, para que nenhum construtivista me denuncie, as chamadas orais.
No primeiro bimestre cobrei as capitais dos estados brasileiros - de modo geral, foi um fiasco.
http://moralemconcordata.blogspot.com/2010/04/e-isto-uma-aula.html
No segundo, foi a vez das capitais dos países da América. Lembrando que cobrei isso de todas as classes que leciono (da sétima série do ensino fundamental ao terceiro ano do médio).
Inesperadamente, dessa vez muitos alunos conseguiram mandar bem.
Uma curiosidade é que, independente da idade dos alunos, eles se infantilizavam: reclamação e até choro por não lembrar os nomes na hora, tensão, unhas roídas e pedidos de "professor, pergunta a capital do Chile que essa eu estudei!".

Ah sim, pérolas sempre existem:
- Capital da Colômbia?
- ... ... ... Itu.

Isto é Trivial #5

"Vocês formam um lindo casal."

05/06/2010

Gritando por Sorvete

Há algo além do simples humor nesta cena.
É curioso pensar como cinismo e inocência vão ganhando rapidamente corpo nesta sequência;
E pensar na questão do estrangeiro numa prisão - o pior lugar para se adquirir fluência -, que mesmo assim tem ânsia de aprender;
E no lugar incômodo que acaba tornando todos dali estrangeiros;
E no contraste entre a repetição frenética e animalesca da frase de ordem (?) e a barreira inerte das paredes e grades;
E na dança final, quase tribal e gerada por motivo mínimo, que se alastra por todas as celas, tornando (mesmo que momentaneamente) descontrolável o espaço do controle;
Poderíamos pensar ser isso um grito de liberdade, mas é muito menos. Talvez seja justamente esse fim de cena não tão feliz que tenha a tornado antológica.


27/05/2010

Isto é Trivial #4

"Infelizmente perdemos, mas perdemos para o time que foi campeão."

23/05/2010

Alguém já disse isso

A casa é, para a mulher, uma macroboca.
[Psicanalistas dizem que o ato de passar batom na boca é uma forma da mulher dizer que está com... bem...
digamos que a boca de cima reflete a situação da boca de baixo: imagine se os pais daquelas meninas da quinta série ficam sabendo que suas filhas passam gloss a cada troca de aula]
É por isso que mulheres curtem reformar o lar.

Nem fui, Nem vou

O jornal Folha de São Paulo agora mudou para melhorar!
A Folha fez o jornal do futuro!!!
Mudou não sei o quê? - nem quero muito saber.
Melhorar não sei o quê? - jornalismo, vocês sabem como é...

Ontem: atravesso a cidade para encontrar amigos perdidos (trajeto Tucuruvi-Rebouças, com tempo estimado pelo gúgou: 30 minutos com transporte público: ahhhbraça-me muito forte).
Atravesso a cidade me arrependendo na constante de 3 semáforos/minuto. "Esses amigos nem são tão próximos assim..."
Para se atravessar cidade, de Tucuruvi até Rebouças tem que:
Linha 1705-Tucuruvi (lotação), desça no Terminal Tucuruvi;
Linha Azul do Metropolitano (metrô) sentido Jabaquara, desça na estação Paraíso, baldeação Linha Verde Vila Madalena, desça na Estação Consolação;
Caminhe até a avenida consolação;
Linha 702C-Terminal Campo Limpo (ônibus), desça no terceiro ponto da avenida Rebouças;
Caminhe até a porradobarqueseusamigosestão.
Tempo estimado: 30 minutos.

"ahhhbraça..." foi bem uns 70 minutos, mais conhecidos como mais de uma hora.

Ah, a Folha de São Paulo. Já que ela está de cara nova, tipografia nova, notícias novas (que ficam velhas rapidinho), jornalistas... bem, esses são os mesmos jovens que um dia veicularam a carta da resistência que pedia para os generais da ditadura colocarem as barbas de molho. Bem, ela, a Folha, fez uma ação publicitária por aqueles lados. Ganhei um exemplar do jornal de domingo às 19h30 do sábado: isso sim é que é jornal. Economia de R$4,50!
Infelizmente não constava a notícia que eu mais desejava ler: Palmeiras 4x2 Grêmio (jogo marcado para as 19h). Do meu time só uma entrevista com o técnico que trocara uns fights com um dos jogadores.
Ainda sobre esportes: HitlerSelektionem 0x2 Isquadra di Mussolini.

Conversa de bar, experimentei a Devassa (é boa e tava barata), risos de histórias de rolês, garçonete doidinha que só, 22h30.
"Agora tenho que ir embora... casado é foda", disse Fernando, pegando seu capacete e lamentando "não devia ter vindo de moto, moro a 5 minutos daqui..., vocês vão ficar?", consenti com Adriano que sim. "Minha mulher vai viajar daqui 15 dias, vamos marcar um rolê daqueles, lembra?, 13 numa noite". "Nem fui nesse dia, num lembra?, mas onde é esse esquema?", "ah, aqui pertinho...", "nem vou".

21/05/2010

Professor Serramundo

Só pra pegar no pé desse excelente governador e, como comprova aqui, educador nato.

Meu amigo de CEP

Retomei o gosto por cartas ao ler esse trecho, que pelo que entendi é de Hélio Pellegrino para Fernando Sabino:

"O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome."

Gostaria eu de receber essa carta. Como consegue ser expressiva, sem clichês ou trivialidades! Só existe a sinceridade, o conselho que não liga em ser desacatado. Quem me dera conseguir alinhar os pensamentos assim...
Só isso já valeria o livro, mas este (O Encontro Marcado, de Fernando Sabino)também é ótimo.

16/05/2010

Não mexam no meu mendigo!

Não se pode mais matar mendigos.
Não entendam mal. Não sou um arruaceiro reprimido.
Claro que não pode! Pelo menos no atual estágio da civilização ocidental, que fique bem claro.
São seres humanos e, como tal, merecem a mesma aplicação da lei, da Constituição, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, do ECA (quando for o caso).

Começa que a própria palavra "mendigo" não pode mais ser usada (claro que isso só nos órgãos públicos e na imprensa, que agora os chamam de "indivíduos em situação de rua".. tá bom.. José Simão diria que é mais uma artimanha do tucanês).
Mas percebo que o tom das notícias sobre esse assunto que são veiculadas na grande imprensa não se preocupa muito com os famigerados direitos fundamentais. Afinal de contas, pra que matar?
Tirem-nos das pontes centrais, coloquem-nos nos albergues, contruam caixas de dormir longe de nossas vistas. Assim, poderemos dormir com a sensação de dever cumprido, sem que nossa história seja manchada de sangue.

Aqui está uma alternativa à matança. Perceba a estética criada por publicitários almofadinhas de Portugal que, na verdade, não muda porra nenhuma da realidade

Passos

Lugar nenhum, coisalguma,
um olhar

palavras poucas um olhar
cidadeluzes
passos, passear,
[andando contigo]
amanhãcendindo
na cidade, seu olhar
cidade de ruas de cima
[e mãos se dando]
fios de luzes do seu cabelo
aguardando prontidão

11/05/2010

Flechas e Balas Perdidas

O sniper mira meticulosamente no pescoço do sequestrador. Tudo certo, nunca erraria, com ajuda de Deus salvaria aquela bela moça feita vítima.
Daí aquele anjo, percebeu no meio do falatório de negociação, mandou de suas flechadas, sem perguntar, sem autorização, esses anjos.
Agora já foi.
Agora ele tem que salvar a moça, seu amor de toda a vida, ele quer atirar logo, por amor, matar logo, e estaria tudo certo.
A moça entregaria a vida ao atirador, matador, salvador de sua vida. Mas aí estaria a tragédia de se amar, porque o amado nunca pode ser herói.
Deve então o matador matar, desarmar, fugir e não amar.

09/05/2010

Beba-me

Neo: pense muito bem, essa é a escolha elementar da sua vida. Isso vai pautar todo o seu futuro e, como aprendi, você deve escolher entre viver uma vida sem disfarces e um mundo maravilhoso, porém de mentira. Isso não tem volta. Em outras palavras, tomar essa poção é como remover a maquiagem do palhaço de um circo, é como o levantar das cortinas do teatro antes do...

Alice: cala a boca, isso é só um sonho e esse sonho é meu!

24/04/2010

Metacrítica

Não existe objeto perfeito para crítica, estando todos os atos e obras propensos a ela.

23/04/2010

Paracrítica

Uma crítica nunca terá o poder de ser positiva ou negativa, tendo como condicionante a interpretação/recepção feita pelo alvo da mesma.

Isto é Trivial #3

Mais uma pérola da trivialidade que eu sei que você já proferiu - e já ouviu.

"Não me importo que você me critique, apenas gostaria que fosse uma crítica construtiva."

20/04/2010

Poema de M. E. N.

Não sei se é correto tornar público, mas um aluno fez essa rima no caderno e eu achei bem legal. Segue:


Odeio ter afta

odeio a suástica

mas, acima de tudo,

odeio matemática.

15/04/2010

É isto uma aula?

Resisti o quanto pude à tradição de cobrar a temida decoreba dos alunos, mas não deu.
Percebendo que eles não conseguiam captar o conteúdo mais mais mais básico da matéria de geografia - ou que eu não estava conseguindo fazê-los entender -, resolvi agir, mesmo que contra os meus ideais de prática pedagógica.

Sim, fiz chamada oral, para todas as séries (da sétima série do fundamental ao terceiro ano do ensino médio), sobre as capitais dos estados brasileiros.

Os alunos tiveram aproximadamente quinze dias para estudar, mas...

3° lugar:
- Capital do Brasil?
- Argentina?

2° lugar:
- Capital do Mato Grosso?
- Mato Fino! Não? ... Mato Seco?

1° lugar:
- Capital de Sergipe?
- ... ... ...
- Dica: parece com o nome de uma fruta.
- Manga!

04/04/2010

Busca dos Seres Sujos

Na busca,

de fusca,

na mosca,

que bosta.

30/03/2010

3ª tese bigbrodesca

30/03/2010, 22h01, em qualquer lugar do Brasil:

- Quem você acha que vai ganhar?

...

Até o momento, ouvi essa pergunta exatamente 17 vezes. Sendo que a mais emblemática partiu de um aluno meu... falávamos sobre sociedade de consumo.

26/03/2010

Isto é Trivial # 02

"Quem diz muita coisa, quase sempre não diz nada."

"Se a justiça me condenar é sinal que não há justiça"

20/03/2010

Isto é Trivial!

Frases despretensiosas pronunciadas por pessoas que querem parecer especialistas em determinados assuntos ou que não querem ficar no vácuo de uma conversa...

"Ronaldo Fenômeno salvou seu time mais uma vez, mas seus gols já não são bonitos como os que ele fazia no auge da carreira"

"A ONU é uma instituição fundamental para a ordem internacional, mas devemos discutir sua representatividade no mundo atual"

"Sou engenheiro, mas trabalho em banco porque eles perceberam que somos os melhores profissionais para analisar os problemas complexos e estruturais"

02/03/2010

2ª tese bigbrodesca

Mesmo que você não queira saber notícias e intrigas desse certame, você saberá.
Prováveis causas:
- As pessoas que se interessam, assistem e acompanham esse programa adquiriram uma espécie de ética jornalística, de equivalente nível do jornalismo feito pela emissora mesma que transmite o reality show em questão. Esses telespectadores não se contentam somente em assisir ao programa, mas também em propagar seus acontecimentos, por minuciosos que sejam.
- As pessoas que não se interessam, não assistem e não acompanham esse programa não adquiriram (ou perderam) uma espécie de ética da crítica, não refutando a propagação das notícias referentes ao reality show em questão. Esses não telespectadores, talvez de tanto demonstrarem descontentamento com o assunto e se passarem por pessoas de pouco refinamento social, se contentam em aceitar as notícias, mesmo que fúteis no seu entendimento, sem muito debater, com o propósito de se passar para outro assunto mais rapidamente.

01/03/2010

Senhoras e Senhores

- Muito obrigado pelos dvds que a senhora me emprestou..
- Senhora está no céu!
- Ah, sim, deculpa. Obridado a v-você.
- Por nada.. não há de quê.
- Mas eu também vou emprestar alguns filmes, não pense que esqueci da senhora.

***

- Por favor, senhor, sente aqui neste banco.
- Senhor é Deus!, e eu não sou tão velho assim..
- Mas eu já me levantei, portanto sente (senhor).

***

Os motivos que fazem alguém tratar de forma polida outras pessoas não devem ser alvo de questionamentos. Um ato tido como respeitoso nada mais é do que uma maneira de mostrar a si mesmo o quanto se está inserido nas normas da sociedade - ou o quanto se quer mostrar estar. Assim, com o propósito de mistificar essências em aparências, o respeito é egoísta e o ato respeitoso, um dos desdobramentos do egoísmo.
O respeito não é para com as pessoas e sim para com as leis.

Yahoo Notícias

Ações contra saques matam 1 no Chile

07/02/2010

Mosquitos pós-modernos

Sempre que penso em motivos para me tornar vegetariano, lembro do famoso documentário "A Carne é Fraca", produzido pelo Instituto Nina Rosa, responsável pelas respostas mais convincentes, tanto do ponto de vista científico como do sentimental, para quem tem lá suas dúvidas em relação ao assunto.
Só que queria lançar outro assunto que não o vegetarianismo. Assunto esse que vem rondando a minha cabeça faz algumas semanas:

O extermínio de pernilongos pelo advento da raquete elétrica

Tenho percebido que esses insetos ficaram mais ligeiros com o tempo. Cheguei a conspirar sobre um complô entre as empresas de inseticidas, que, através dos seus próprios produtos, promoveriam uma mutação nesses insetos, nos tornando mais vulneráveis e cada vez mais dependentes dos inseticidas. Sendo menos conspirativo, acabei pensando que o ocorrido foi a boa e velha seleção natural, na qual somente os insetos mais fortes e habilidosos conseguiram escapar dos produtos.
Aconteceu o que nem Darwin nem Smith imaginavam: apesar desses vampiros em forma de mosquito estarem nos dando um tremendo trabaho, algum inventor - que nesse momento deve estar chorando os rios de dinheiro que não ganhou - concebeu sua obra-prima, sem nem mesmo colher os louros por isso. Devia estar assistindo ao aberto da Austrália, quando acabou a luz no seu bairro.. o resto é história.
É, insetos, foi-se o tempo em que éramos seus reféns, numa espécie de doação de sangue compulsória. Época em que, nós humanos, contávamos apenas com a habilidade manual, os baygons, os raids e com as raquetes não elétricas para nos livrarmos de vocês.
Apelidada carinhosamente por nós, seres humanos, de frita-mosquitos, a nova raquete me fez lembrar de uma passagem de "A Carne é Fraca". Era a professora de Ética e Filosofia Política da UFSC, Sônia Felipe, que falava que o hábito alimentar contemporâneo perdeu toda a identificação entre o homem e sua comida. O exemplo citado por ela foi o hambúrguer, pois não se sabe quantos animais, quais partes destes e nem mesmo quais animais foram mortos para que aquele lanche com os amigos seja feito.
Assistindo pela primeira vez ao filme, lembrei quando meu pai falava que era de costume, meses antes do natal, meu avô comprar um bezerro para a ceia. O pequeno animal era alimentado, amado e até ganhava nome (dado pelas crianças). Na ceia, meu avô fazia uma oração, agradecendo a Deus pela vida daquele animal que agora alimentava uma família inteira reunida.
Ok, dadas as voltas, digo: onde está hoje a identificação com o inseto acossado que nos atormenta? Antes se perseguia o pernilongo e, ao abatê-lo, um grito de "toma, filho da puta!" era emanado, fazendo com que a parede ganhasse uma marca de sangue (seu sangue, meu sangue) que perduraria ali por anos, nos fazendo lembrar não da crueldade humana, mas da condição humana. Condição em que temos que demonstrar a todo o momento que mandamos no pedaço.
Agora, com o frita-mosquitos, o homem perde a identificação através do inseto, perdendo também um referencial.

01/02/2010

Por descuido

Sentado e acomodado

contemplar não é a palavra certa

da natureza, só a lama resta

e espera algum portão abrir, que vai levá-lo aonde não quer ir

"as novidades precisam ser construídas"

ainda assim pensou como "seria bom estar ali e não contigo"


Ajeita-se: a dormência antes do formigamento

a sujeira está em tudo, nos sapatos, nas costas, no portão que não

abre

por descuido, talvez a música que ouvia, que escolhia ouvir,

a música que trazia a sensação da alegria que não era alegria,

e as pedras que estão sempre explodindo

pensou que "era melhor estar aí e não comigo"

30/01/2010

1ª tese bigbrodesca

Quanto antes a mulher provida de beleza previamente selecionada (a quem chamaremos de "gostosa", para efeito de simplificação) for eliminada, antes irá posar nua.

Consequências:
- Para a gostosa> por um lado, perderá alguns milhares em dinheiro, alguns dias a mais de exposição na televisão, algum tempo a mais para conseguir valorizar o seu produto. Por outro, acelerará sua exposição em pelo menos duas revistas (VIP e Playboy ou Sexy) e, claro, ganhará alguns milhares em dinheiro.
- Para os telespectadores> perderão a exposição do corpo da gostosa na tv, mas terão tal exposição em meio impresso - e, rapidamente, na internet.

Peculiaridades:
- A exposição da gostosa na casa determina quando e como será a exposição na revista. A quantidade de tempo da estadia costuma ser um determinante sobre a quantidade de dinheiro a se conseguir em troca da exposição na revista. Excetuando-se tais situações:
- Se a beleza da mulher previamente selecionada for tida como acima de qualquer julgamento pelo público e/ou internos - julgamento este, em todos os casos, de caráter moral.
- Se a gostosa que concordou com a exposição em mídia televisiva não concordar com a exposição em mídia impressa (exceção de caráter teórico, ainda sem verificação de precendentes na realidade). Lembrando sempre que a não concordância inicial acerca da exposição em revista pode ser apenas uma forma de negociação, com vistas a valorizar o produto a ser exposto.


Tese inacabada e à guisa de conclusões

28/01/2010

Notícias de uma chuva de verão

E a repórter comenta com o morador do município de Cunha: agora é esperar a chuva parar e contabilizar o prejuízo, né, seu Osvaldo?
Seu Osvaldo: é, tem que esperar a água descer pra poder entrar em casa e ver o que perdeu..
Repórter: mas o que você perdeu?
Seu Osvaldo: tudo.

A conversa dos cegos como amoralidade

Hoje, peguei um ônibus para voltar do metrô para minha casa e, bem próximos a mim, estavam três deficientes visuais - dois rapazes e uma moça. Todos munidos de suas bengalas retráteis, um rapaz e a menina usando óculos escuros. O rapaz que não estava de óculos, mostrava a todos seus dois grandes olhos de íris esbranquiçadas, enquanto se percebia nos outros dois cegos algo como uma atrofia nos olhos.

Enquanto os três engatavam uma empolgada conversa, que chamava a atenção até mesmo do motorista e da cobradora, pude extrair partes que são de grande significado.

Um dos rapazes dizia: Rodolfo, sua mãe tem uma beleza daquelas tipo de parar o bairro quando sai pra comprar pão. Mas acho que ela perdeu essa beleza, agora que está velha.
A moça: deve ser o cansaço, o peso do tempo, do corpo. Ela teve quatro filhos..

Pergunto-me o que faz com que deficientes visuais consigam falar com tanta propriedade da beleza física das pessoas. E de tratar de assuntos tabus, como a velhice (principalmente entre as mulheres) e a obesidade/excesso de peso.
Teria sido essa conversa engatada pelo princípio do "sou deficiente, logo posso falar dos outros deficientes e notar os defeitos dos outros"?

Rodolfo pergunta a Tiago: com que nota você acha que a voz do Seu Messias parece?
Tiago: acho que é um Lá, mas caindo para o Si bemol...
Rodolfo: é isso mesmo. Mas a textura é tipo uma mistura de amargo com docinho...
Tiago: acho que é aquela parte amarga do álcool.

Nesse momento ouve-se alguns risos no ônibus. Riam de Tiago. Mas eu não ri. Aliás, parei para pensar no que ele falou. Tentei analisar e interpretar, primeiro pensando naquele gosto forte que trava a garganta quando se bebe cachaça.. mas depois concluindo que poderia ser também a consequência do abuso de álcool. Nisso olhei para Rodolfo que, parecendo estar em sintonia com esse meu último pensamento, falou algo sobre um tio dele que ganhou apelido de "bêbo" (uma contração de bêbado). Os cegos riram.

Eu segui pensativo, tentando lembrar se alguma outra vez já tinha presenciado uma conversa tão relevante. Também considerei se estava dando peso demasiado àquela conversa e, claro, pensei na minha falta de educação por reparar em assuntos alheios. Por fim, me indaguei se a presença de outras pessoas poderia ter moldado a conversação dos cegos, ou seja, se eles teriam aquele "tipo" de conversa independentemente de plateia.
Eles continuavam a conversa, cada frase como um tiro na moral, cada resposta ateando fogo nos manuais de etiqueta.. e falaram muitas coisas mais, mas a minha perplexidade não me permitiu gravar mais nada até que eu descesse do ônibus.